Estudo baseado em livro - Filosofia - Teologia - Vida Cristã

A Revolução do Self: Como o Individualismo Expressivo Redefiniu a Moral e a Sociedade

A primazia do “self psicológico” e do “individualismo expressivo” transformou fundamentalmente as categorias morais e sociais ocidentais ao internalizar a fonte de significado e autenticidade, rejeitando as autoridades externas e tornando o bem-estar psicológico individual a métrica suprema para a moralidade e a aceitação social.

Carl Trueman, baseando-se nas análises de Charles Taylor e Philip Rieff, traça a história dessa transformação, que ele argumenta ser o contexto mais amplo (a revolução do self) que torna plausível a revolução sexual.

A seguir, detalhamos como o primado desses conceitos transformou as categorias morais e sociais:

1. Transformação das Categorias Morais

A mudança para o self psicológico e o individualismo expressivo inverteu os códigos morais e a fonte de autoridade.

Rejeição da Autoridade Externa (Mimesis para Poiesis)

A cultura ocidental passou de uma visão predominantemente mimética para uma poiética.

  • Mimesis (imitação): Considerava que o mundo tinha uma ordem e um significado dados, e os humanos eram obrigados a descobrir e se conformar a esse significado e propósito.
  • Poiesis (criação/invenção): Passou a ver o mundo como matéria-prima a partir da qual o significado e o propósito podem ser criados pelo indivíduo. O propósito transcendente colapsa no imanente, e propósitos dados colapsam em propósitos que o indivíduo escolhe ou cria para si.
  • Perda da Teleologia: Essa mudança enfraqueceu a ideia de que a humanidade tem um fim determinado ou uma essência que determine seu comportamento (teleologia inata).

O Self como Fonte de Autenticidade e Verdade

O individualismo expressivo se manifesta em uma cultura de autenticidade, onde a realização humana é encontrada ao “encontrar e viver a sua própria maneira” de ser humano, em oposição à conformidade com modelos externos (sociedade, autoridade religiosa ou política).

  • Prioridade Psicológica: Prioriza-se a convicção psicológica interior (sentimentos/intuições) como decisiva para o senso de quem somos e qual é o propósito da vida, mesmo sobre a realidade biológica. O transgenerismo é o exemplo máximo disso, onde a convicção psicológica interna é soberana.
  • Moralidade como Gosto Pessoal: O discurso ético moderno se desfez porque as afirmações de verdade moral nesse contexto são vistas como meras expressões de preferência emocional ou gosto pessoal.
  • Transvaloração dos Valores (Atitude Analítica): Sob o domínio do homem psicológico (Philip Rieff), a sociedade adota a atitude analítica, onde há uma inversão de valores: o que antes era tido como bom passa a ser visto como mau, e o que era saudável passa a ser visto como doença. Códigos morais tradicionais são vistos como repressivos e opressores, tornando-se parte do problema cultural, não da solução.

2. Transformação das Categorias Sociais e Estruturas

O self psicológico inverteu a relação entre o indivíduo e a comunidade, exigindo que as instituições sociais se adaptem às necessidades internas do indivíduo.

Internalização do Foco e Propósito

  • Compromisso Interior: Se, tradicionalmente, o indivíduo encontrava significado em propósitos comunais voltados para fora (homem político, religioso, econômico), no mundo do homem psicológico, o compromisso é, acima de tudo, consigo mesmo e dirigido para o interior.
  • Felicidade Psicológica como Propósito: A satisfação na vida (e no trabalho) é encontrada não nos resultados externos para a família ou comunidade, mas na sensação interior de bem-estar psicológico pessoal.
  • Plasticidade da Identidade: Como a vida psicológica interior é soberana, a identidade se torna potencialmente ilimitada, tão plástica quanto a imaginação humana.

Mudança na Função Social das Instituições

As instituições e a cultura são reconfiguradas para servir ao indivíduo.

  • Terapia e Formação: O papel do terapeuta mudou de treinar o indivíduo para se conformar e se comprometer com a comunidade para proteger o indivíduo das neuroses causadas pela sociedade, que sufoca sua capacidade de ser autêntico.
  • Educação Terapêutica: Locais como escolas deixam de ser lugares para a formação (moldar o indivíduo para a sociedade) e se tornam “lugares seguros” onde os alunos “atuam” (performam sua identidade autêntica) e são afirmados, para não prejudicar seu senso de bem-estar interior.

O Papel do Reconhecimento e o Conflito Social

Charles Taylor enfatiza que a identidade é dialógica — ela é formada e sustentada pelo reconhecimento de outros seres autoconscientes.

  • Necessidade de Reconhecimento Público: Para o self psicológico, o reconhecimento público da identidade escolhida é crucial para o bem-estar. A recusa em reconhecer ou afirmar a identidade de alguém é vista como um ato que causa dano psicológico.
  • Abolição da Tolerância Simples: A mera tolerância de identidades marginais não é aceitável para os revolucionários sexuais; o objetivo é o pleno reconhecimento da legitimidade.
  • Vitimização e Dignidade: O imaginário social moderno prioriza a vitimização e o valoriza o direito do indivíduo de definir sua própria existência. O foco social mudou da honra (baseada em hierarquia social e nascimento) para a dignidade (baseada na igualdade intrínseca de todos os seres humanos, uma noção fundamentalmente anti-hierárquica).

Politização da Identidade Sexual

A fusão do pensamento da Nova Esquerda (Marx) e Freud levou à politização do sexo. Os códigos sexuais tradicionais passaram a ser vistos como instrumentos primários de opressão da sociedade burguesa.

  • Identidade Sexual no Centro: A identidade, influenciada pelos desejos internos, passou a ser considerada sexual em sua natureza.
  • Conflito de Discurso: A preocupação com o dano psicológico elevou a importância dos “crimes de discurso” (como a linguagem que causa “dano psicológico”). O uso de termos como “homofobia” ou “transfobia” é deliberado, colocando as críticas à nova cultura sexual no domínio do irracional e do preconceito, exigindo o repúdio positivo dos costumes tradicionais. Essa psicologização do dano desafia a liberdade de expressão, pois palavras se tornam “armas potenciais” de opressão.

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